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Por: Nelson Cadena*

Os antecedentes

No final da primeira década do século XX o mundo vivia a expectativa de uma nova tecnologia, então denominada de sistema de telefonia sem fios, mais tarde de rádio- telegrafia e em alguns paises de rádio-telefonia. Ou seja, estava sendo desenvolvido em vários lugares do mundo um sistema que utilizava as ondas magnéticas e se imaginava, na prática, seria um aprimoramento do telégrafo ou do telefone. As experiências do cientista italiano Guglielmo Marconi, tido como o inventor do rádio, repercutiam também no Brasil. As revistas publicavam na sua seção erudita artigos e relatos em torno da nova tecnologia, da qual nada mais se sabia além da possibilidade de transmitir à distância sons e palavras. Para que? Fins militares era uma das possibilidades, logo posta em prática com o irromper da I Guerra Mundial. A outra possibilidade cogitada era a de ser um veiculo para difusão de cultura, entendendo como tal música clássica e conferências, conteúdos para consumo da mesma elite (intelectual e econômica) que aprimorava o novo invento e se preparava para explorar todo seu potencial de veículo de comunicação.

O Rádio no Brasil

Em 07 de setembro de 1922 o Brasil conhecia oficialmente o rádio. Na data, o Presidente da República Epitácio Pessoa apresentava a novidade aos brasileiros na solenidade de abertura da Exposição Comemorativa do Centenário da Independência realizada no Rio de Janeiro. Dentre os presentes dois baianos que mais tarde seriam alguns dos fundadores da Rádio Sociedade da Bahia: os Doutores Agenor Augusto de Miranda e Cesário de Andrade. Foi apenas uma transmissão experimental, mas que teve grande repercussão na imprensa, e muito mais entre os convidados ao evento que ouviram, através dos monitores instalados em pontos estratégicos, o discurso da autoridade máxima da República e mais os acordes da opera o Guarani de Carlos Gomes. Também participava da solenidade o Dr Roquete Pinto que logo cogitaria instalar uma emissora, na capital, com programação regular, conforme experiências bem sucedidas então realizadas nos Estados Unidos e Europa.

Antecedentes na Bahia

Enquanto cientistas em todo o mundo realizavam experiências em torno do novo invento os legisladores cuidavam de estabelecer limites que se fizeram mais necessários a partir do uso do veículo durante a I Guerra Mundial. No Brasil não seria diferente, de modo que no mesmo ano da transmissão pioneira do Rio de Janeiro, o Governo determinava que a instalação de postos receptores e transmissores de ondas magnéticas deveria ter o seu aval, assim como a venda de aparelhos receptores. O cidadão que deseja-se adquirir um aparelho receptor para ouvir rádio, por exemplo, deveria se cadastrar e seguir os trâmites burocráticos até receber do estado o deferimento. Foi nesse contexto que o Dr Cesário de Andrade, Acadêmico da Escola de Medicina da Bahia, requereu do Governo permissão para instalar em sua residência um posto receptor tele-radiofônico. Concessão assinada pelo  Ministro da Viação e Obras Públicas, o Dr Cesário inaugurou oficialmente a sua estação em Junho de 1923. Convidados seus assistiram, semanas após, a emissão de duas conferências com os temas "Como evitar a tuberculose" e "Necessidade de exames antes do casamento".

Os preparativos na Bahia

Em janeiro de 1924 aportou na Bahia para uma audiência com o Governador do Estado, o engenheiro Moreno Del Valle, técnico da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro recém instalada e já em operação na capital da República. Se fez acompanhar de acadêmicos de medicina e engenheiros baianos interessados em instalar uma emissora no Estado. Del Valle requereu da autoridade baiana as condições de infra-estrutura para instalação dos equipamentos, além de seu empenho para facilitar as guias de importação e os trâmites burocráticos da alfândega, junto ao Governo Federal. Em 12 de março do mesmo ano os jovens entusiastas publicavam edital de convocação para uma Assembléia Geral destinada à discussão dos estatutos e fundação da Rádio Sociedade da Bahia. No dia seguinte em reunião realizada nos salões do Instituto Politécnico da Bahia, Largo de São Pedro, era constituída oficialmente a Rádio Sociedade da Bahia, então definida em ata como "Elemento de Cultura Popular". 

Os fundadores da rádio

A Radio Sociedade da Bahia passou a ser a representação de uma sociedade constituída por 200 associados. A sua primeira Diretoria foi constituída justamente pelos seus idealizadores que assumiram as funções executivas, enquanto os apoiadores assumiram cargos na comissão técnica e fiscal. Os primeiros podem ser considerados os legítimos fundadores, já que coube a eles a iniciativa da instalação da emissora e as gestões em todas as instâncias de poder.

Diretoria Executiva
Presidente Executivo- Engenheiro Agenor Augusto de Miranda-Chefe do Distrito de Telégrafos
Presidente da Assembléia Geral: Dr Caio Moura- Professor da Escola de Medicina
1º Vice-Presidente: Dr Cesário de Andrade-Professor da Escola de Medicina
2º Vice-Presidente: Engenheiro Arquimedes Gonçalves-Diretor da Escola Politécnica
1º Secretário: Engenheiro Oscar Carrascosa-Comerciante
2º Secretário: Engenheiro Filinto de Mello-Fiscal de Saneamento

Comissão Técnica
Engenheiros Dagoberto de Menezes-Chefe do Distrito Telegráfico; Gustavo Lopez-Chefe do Serviço Telefônico e Gastão Oliveira-Encarregado da Estação Radiográfica de Amaralina.

Comissão Fiscal
Engenheiro Epaminondas dos Santos Torres-Presidente do Instituto Politécnico; Dr Urbano Pires-Banqueiro e Anísio Masorra-Diretor da Companhia Brasileira de Energia Elétrica da Bahia.

A razão do nome

Enquanto em outros paises a denominação das emissoras de rádio adotou como padrão referências históricas, da natureza, ou comerciais (associado a marcas de empresas voltadas para a tecnologia de comunicações), no Brasil o próprio sistema de grupos fechados favoreceu um padrão único no mundo. No país as emissoras de rádios foram constituídas por grupos de engenheiros, cientistas, radio-amadores, em geral reunidos em Sociedades ou Clubes que funcionavam através de contribuições mensais regulares. De modo que na primeira década do rádio brasileiro, mais de vinte emissoras adotaram essa denominação sempre acrescida da marca do Estado ou Cidade. No caso específico de Salvador prevaleceu a palavra Bahia, influência da mídia sulista que assim qualificava a capital do Estado. O certo é que esse sistema de sociedades e clubes criou uma situação onde os associados da rádio eram proprietários e audiência ao mesmo tempo.

A razão do prefixo

A Radio Sociedade da Bahia nasceu identificada como PRA-4, sigla de prefixo 4. O "A" era uma classificação para ordenar alfabeticamente as emissoras. Prefixo era uma convenção internacional que determinou para o Brasil as letras PR, sigla que prevaleceu durante quase duas décadas, depois sendo substituída pelas iniciais ZY acrescida da faixa de freqüência. A Radio Sociedade da Bahia recebeu o prefixo número 4 por ter sido a quarta rádio a ter autorização oficial para funcionar. As três emissoras que a precederam foram a PRA-1 que seria uma emissora, digamos experimental , operada com os mesmos transmissores que possibilitaram a primeira irradiação oficial em 07/09/1922; PRA-2 denominação dada a Radio Sociedade do Rio de Janeiro e PRA-3 denominação da Rádio Clube, também do Rio de Janeiro. A Radio Sociedade da Bahia recebeu o prefixo PRA-4 e a Rádio Clube de Pernambuco (que se diz pioneira e possui registro de radiotelegrafia e não radiofonia desde 1919)  recebeu apenas o PRA-8.

A inauguração oficial

24 de março de 1924 passou para a história como inicio de atividades da Radio Sociedade da Bahia, embora não haja nenhum registro sobre irradiações realizadas naquele dia.  Porém, testemunhos orais e as comemorações de aniversário realizadas desde a década de 30 oficializaram a data. O certo é que em 10 de abril de 1924 através do posto receptor instalado na residência do Dr Cesário de Andrade foram ouvidas, inicialmente, irradiações dos Estados Unidos e mais tarde os acordes da Banda da Real Nave-Ítalia, através de um link providenciado pelo engenheiro Elba Dias. São as primeiras irradiações das quais existem registros concretos. A inauguração oficial da rádio, esta efetivamente ocorreu em solenidade pública realizada no dia 27 de abril de 1924, com registro fotográfico publicado na revista Renascença. A cerimônia que contou com a presença do Governador do Estado foi realizada na sede do Palacete Mercury  (Rua Chile) de propriedade do imigrante italiano Giovanno Mercury, visavô da cantora Daniela Mercuri e proprietário da Chapelaria Mercury, instalada no térreo do edifício. Instalações cedidas pelo imigrante por alguns meses. A Rádio transferia-se do Instituto Politécnico onde funcionava provisoriamente para a Rua Chile, também provisoriamente.

A grade de programação

No fim do Governo Góes Calmon (1928) a Rádio Sociedade da Bahia passa a operar com freqüência no Passeio Público da Bahia  (ao lado do Palácio da Aclamação, residência oficial do Governador) e ali tem a oportunidade de realizar as primeiras irradiações ao vivo num pavilhão montado com essa finalidade. A sua grade de programação era especificamente de música erudita, conferências, poesias e algumas noticias comentadas dos jornais, sempre num âmbito científico. Nada a ver com conteúdos jornalísticos, apenas referências culturais. Os poucos baianos que possuíam aparelhos receptores, de custo muito elevado, podiam ouvir a rapsódia Húngara, operas de Verdi, clássicos de Chopin, Mozart e Listz, as sinfonias de Beethoven, mazurcas com solos de violino, valsas vienenses, mas também tinha espaço para a música, então, chamada popular : tangos argentinos e chorinhos regionais. Despontavam os nomes de alguns intérpretes baianos como Oswaldo Benjamin e as senhoritas Nair Tenório de Albuquerque, Arthemia de Souza, Nair Pereira de Carvalho, Zenith Soares, Carmen Alves de Moraes, Jandyra Mendonça, Adelaide Santos, Ricardo Peixoto de Melo, Haydeé de Almeida Castro e Lourdes Freitas.

Nova Direção e novos rumos

A rádio deixa de ser uma sociedade e passa a ser adquirida pelo empresário Armando Correia da Rocha, não se sabe ao certo como se deu a transferência de ações e em que circunstâncias isso ocorreu. O certo é que o novo proprietário obtêm os favores do Governo revolucionário representando pelo interventor Juracy Magalhães e em 1932 se transfere em definitivo para o Passeio Público onde, conforme registramos, realizava eventos públicos desde 1928.  A nova direção estabelece novos rumos, priorizando uma programação comercial, voltada para o entretenimento, com ênfase na música popular, sem abrir mão totalmente do erudito.

E nessa década de 30 a Radio Sociedade monta o seu departamento de Radio-Teatro e também o núcleo inicial do jornalismo, voltado quase que exclusivamente para esportes, em função da censura vigente e medidas restritivas aos meios de comunicação adotadas pelo Governo Vargas. Iniciava a transmissão dos jogos realizados no Campo da Graça com Roberto Machado Freitas e logo em seguida Ubaldo Cãncio de Carvalho, então, considerado pela imprensa escrita o melhor locutor esportivo do Norte e Nordeste, naquele tempo. As transmissões eram realizadas através de uma linha telefônica, com grande comprometimento do sinal; o locutor não dispunha de cabine, ficava no campo sempre atento ao emaranhado de fios que poderiam interromper a sua transmissão.

É nessa década de 30 que a Rádio Sociedade passa a dispor de recursos extras de publicidade na sua receita, favorecida pelo Decreto-Lei 21.111 de 1932 que liberava e legitimava o espaço comercial para o veículo.

Dorival Caymmi e Zé Trindade

Num domingo de 1935 Dorival Caymmi recebeu o seu primeiro cachê artístico, o pagador era a Radio Sociedade da Bahia. Tinha 21 anos e coube-lhe apenas uma parcela dos 40 mil reis pagos ao grupo musical Três e Meio do qual fazia parte, inspirado no Bando da Lua cujo repertório incluía composições de Francisco Alves, Carmem Miranda, Aracy De Almeida, Noel Rosa e Silvio Caldas, dentre outros) . O grupo apresentava-se regularmente nas três rádios baianas existentes (Sociedade, Clube e Commercial). Não por muito tempo, pois sem perspectivas de um sucesso mais consistente e com a sua situação financeira agravada rumou para o Rio de Janeiro em 1º de abril de 1938. Lá conquistaria fama, dinheiro e admiração.

Pela mesma época em que Caymmi freqüentava a Radio Sociedade aportou na emissora um jovem comediante, filho de um industrial abastado, renegado pelo pai. Era Zé Trindade que durante muito tempo divertiria os baianos numa versão soteropolitana do programa "Teatro pelos Ares" da radio Mayrink Veiga, chamado "Divertimento em Casa". Na emissora do Passeio Público Trindade faria dupla com o personagem "Chico Fulô", mais tarde seguindo para o Rio de Janeiro onde se tornaria um dos maiores humoristas brasileiros de todos os tempos.

Em tempos de guerra

Em 1935 a Radio Sociedade da Bahia iniciava transmissões da Radio Berlim, então a emissora de maior potência no mundo, detentora de uma torre de 150 metros de altura, treliçada em aço a semelhança da Torre Eiffel. A Radio Berlim já operava no país desde 1933 no seu idioma, irradiando regularmente os discursos de Adolf Hitler, com audiência cativa em comunidades de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A tecnologia de ondas curtas disponibilizada pelos holandeses desde 1927 permitia a invasão do espaço aéreo das nações sem o seu consentimento; no Brasil não seria diferente. Alemães, Italianos e russos fizeram bom proveito dessa tecnologia, de inicio irradiando no idioma pátrio, a partir de 1935 em outras línguas, incluindo o português. Daí por diante elas próprias estabeleceram convênios para retransmissão de seu sinal.

Mas a Radio Sociedade transmitiria também programas da Radio SIC Italiana e na medida em que a guerra se fez evidente (1939) passou a priorizar a programação da BBC de Londres, com transmissões regulares, em especial aos domingos. Em 1941 quando já operava no país a rede clandestina alemã, deixou de irradiar a Radio Berlim. E a partir de 1942 retransmitiu comunicados da Voz da América e outras emissoras Norte-Americanas de menor porte alinhadas na proposta ideológica do Pan-americanismo.

Foi nesse ano de 1942 que a Radio Sociedade desempenhou papel fundamental na mobilização das massas na Bahia, logo após o torpedeamento de navios brasileiros por navios alemães no litoral baiano. Manifestações ocorreram em Salvador, com estudantes realizando passeatas para exigir do Governo atitude mais firme contra o eixo nazi-fascista.
Ainda durante a guerra a Radio Sociedade irradiaria o programa "A Marcha para a Vitória" que narrava a bravura dos aliados e logo lançava um programa de noticias apresentado pelo jovem militante do Partido Comunista Jacob Gorender, redator de O Imparcial, este defensor assumido do combate ao nazi-fascismo. Gorender abandonaria meses depois a lide jornalística para alistar-se como voluntário na Força Expedicionária Brasileira.

"A Hora da Criança" e outros sucessos

Em 1947 aportou em Salvador um convidado especial da Radio Sociedade, o escritor Monteiro Lobato recebido com o costumeiro carinho dos baianos: muitas homenagens e ampla divulgação da imprensa. Á noite acompanhado do Governador Otavio Mangabeira e seu Secretário de Educação Anísio Teixeira, Lobato assistia na tribuna de honra do Cinema Guarani a encenação da peça "Narizinho" da autoria de Adroaldo Ribeiro Costa, adaptação baseada no personagem do Sitio do Pica Pau Amarelo, obra do escritor. Era uma opereta de quatro atos com 110 crianças e uma orquestra a rigor, primeira experiência do gênero realizada no país, sob os auspícios da Radio Sociedade onde Ribeiro Costa apresentava " A Hora da Criança" desde 1943, programa radiofônico que permaneceria no ar até inícios da década de 70. O programa que foi um dos maiores sucessos da rádio em todos os tempos de certo modo favoreceu a expansão da "Hora da Criança" como obra filantrópica de assistência aos menores, ainda hoje existente e atuante. Adroaldo Ribeiro Costa, por sua vez, abandonou o rádio para se dedicar a obra social por ele criada. No jornalismo se projetou como editorialista do jornal A Tarde até seu falecimento em 1987 e o seu nome é sempre lembrado como autor do hino oficial do Esporte Clube Bahia.

Outros programas de sucesso naquele tempo eram "Samburá de Surpresas"   (inspirado na Caixa de Perguntas apresentado por Almirante no Rio de Janeiro)  , "Revelação" (programa com gongo soando para o cantor desclassificado, inspirado em Calouros em Desfile de Ary Barroso), "Crônica do Dia" apresentada por Fernando Maia, "Programa Dançante", "Melodias Portuguesas", "Na Onda da Boa Terra" (concurso de valsas), "Programa Infantil" apresentado por Elisio Oliveira e mais tarde por Darlinda Ferreira, "Melodias Douradas" com locução de Natherico Bastos e acompanhamento ao piano de Wilson Oliveira Sampaio, "Vozes da Espanha" apresentado por Nemésio Martinez, dentre outros.

A Sociedade Musical

Até 1939 a Radio Sociedade foi uma referência de programação musical de qualidade, mas ressentia-se de uma programação que contemplasse os artistas locais e era muito criticada por isso. Com o desaparecimento das rádios Commercial e Clube, cuja licença foi cassada pelo Governo, a cobrança se tornou ainda maior com os críticos insistindo na tese de que a Radio deveria mudar os rumos de seu departamento artístico. Foi nesse cenário que aportou na Bahia nesse ano de 1939 o maestro Jatobá, contratado pela emissora como Diretor Artístico.

Jatobá estimula compositores e intérpretes baianos, promovendo o samba e outros gêneros ao gosto do povo. Jatobá promove shows no Teatro Jandaia e revigora a música popular atendendo pedidos dos ouvintes. No "casting" da emissora desfilam os nomes de Naná Oliveira, Manoelzinho Araújo, Lourdes Cardoso, Eduardo Perez, Esmeraldo Fernandez, Idalba Rocha, Mary Daniel, Deodato Madureira, Maria Carolina, Renato Braga, Alberto Costa, Roberto Santos, Alfredo Chamusca, Margarida Campos... Com o samba em alta a Radio Sociedade passa a promover anualmente o concurso de marchas de Carnaval com prêmios para compositores e intérpretes e esquenta o verão baiano com agitos fartamente divulgados na imprensa, programações com platéia em teatros e a participação de sambistas de projeção nacional.

Mais tarde a emissora lança " Carnaval em Marcha", programa apresentado por Gabriel Castilho: carro-chefe do concurso de marchas carnavalescas, com mais de uma centena de composições inscritas, iniciativa mantida pela emissora até meados dos anos 50. Em fevereiro de 1951 a Radio enfatizava e repercutia o sucesso da fubica elétrica de Dodô & Osmar, na sua descida pela Rua Chile, semente do Trio Elétrico. A emissora era assim protagonista de um episódio que seria o divisor de águas do Carnaval baiano, ocorrido no ano referido, mas que a história por conveniência de alguns preferiu datar como fevereiro de 1950.

No grupo dos Associados e Antônio Maria

Na virada da década de 40 a Radio Sociedade da Bahia é adquirida pelo empresário Assis Chateubriand, passando a integrar o grupo dos Diários e Emissoras Associadas do Brasil; logo o grupo seria o promotor da instalação da primeira emissora da América Latina, a TV Tupi, inaugurada em setembro de 1950.  Gileno Amado é empossado como novo Presidente da Rádio Sociedade e a Direção Geral é confiada ao pernambucano Odorico Tavares que de fato seria o gestor da rádio e doravante uma das maiores personalidades do Estado, agitador cultural e político de grande projeção e enquanto viveu uma das maiores referências de poder. Odorico Tavares era homem de ação, um gestor sempre em busca de inovações. Percebeu a importância que os programas de auditório estavam ganhando no cenário da radiodifusão nacional e investiu para que a Radio Sociedade fosse um modelo. Nesse contexto promoveu a mudança das instalações da emissora do Passeio Público para a rua Portugal e mais tarde para a Carlos Gomes, no local onde hoje funciona o Núcleo Cultural da Caixa Econômica Federal.

Mas a partir de 1944 com a inauguração da Rádio Excelcior e a perda de alguns quadros para a emissora concorrente, a Radio passou a viver a expectativa de perda de audiência, fenômeno de fato constatado logo nos primeiros meses. A "renovação do rádio baiano" anunciada pelos jornais mexeu com os brios de Odorico Tavares que foi no Rio de Janeiro buscar para ser o novo Diretor Artístico da emissora nada mais, nada menos do que Antônio Maria. Permaneceu dois anos na terrinha, provocando uma revolução sem precedentes na radiofonia baiana. Maria já era um dos mitos no radio brasileiro, cronista de mão cheia, nos anos 50 autor de magníficas crônicas sobre a Bahia publicadas na revista Manchete, pivô mais tarde de um escândalo sentimental envolvendo Danuza Leão e Samuel Wainer. Antônio Maria descobriu na Bahia Riachão e Batatinha e não poupou esforços para trazer à terrinha os grandes ídolos: Emilinha Borba, Nelson Gonçalves, Vicente Celestino, dentre outros. O cronista, locutor, administrador, diretor artístico, mostrou aos baianos um novo estilo de fazer rádio. E na crônica esportiva inovou, criando a resenha nos moldes em que feita ainda hoje.

Audiência, liderança e João Gilberto

Em 15 de julho de 1951 o Diário de Noticias publicava pesquisa do Ibope confirmando, pelo terceiro ano consecutivo, a liderança da Radio Sociedade da Bahia. Noticia alvissareira para a emissora dos Associados, naquele momento, alvo da crítica especializa que apostava num novo patamar do rádio baiano por conta da programação e estrutura da Radio Cultura recém instalada entre nós. Os números do Ibope apontavam 23,6% de audiência para a Sociedade, seguida da Rádio Nacional do Rio de Janeiro com 14,8%, Rádio Excelcior com 14,5% e Rádio Cultura com 6,6%. Ou seja, a audiência da Sociedade era maior que a soma da audiência de suas concorrentes baianas.

A verdade é que a Sociedade se preparou para enfrentar a nova emissora, na época de sua inauguração realizando uma série de shows de grandes artistas no seu auditório-teatro da Carlos Gomes e também nos cinemas da cidade. Um dos shows de maior impacto apresentados foi o do Frei Mojica, o frade franciscano que percorria a América cantando musicas populares que agitavam as massas, a sua turnê no Brasil, patrocinada pelas Indústrias de Alimentos Peixe. Pela mesma época a Radio fez a temporada baiana da famosa soprano alemã Erna Sack, com platéia cheia no Cinema Guarani. Também no mesmo cinema a temporada do Waldir Azevedo, um dos maiores intérpretes, já naquele tempo, do chorinho brasileiro. A temporada baiana de Gilberto Alves também seria um de seus triunfos, a mesma sob os auspícios da rádio baiana.

Dentre outros programas a Radio Sociedade exibia Ritmo Alegre, Caixa de Música, Hora do Bolero, Jornal Falado, Em Ritmo de Samba, Parada de Sucessos, Divina Música, A Bahia no Baião, Lembranças de Gardel, Teatro das Cinco, Ritmo e Romance, Cartaz do Dia, Resenha Esportiva (às 19 horas), Tempo de Valsa, Programa de Silva Neto, A Voz da Bahia, Vamos ver o Brasil, Histórias do Tio Raul com apresentação de Everton Visco, Certo ou Errado programa de auditório comandado por Armando Chaves, Rádio Variedades Seleções, Grande Jornal A-4 com Pacheco Filho e Antônio Laborda, Biblioteca para Milhões com apresentação de Alexander Paterson, Quinta Avenida, Tômbola Musical  com apresentação de Renato Silva e o Show Sicol, programa onde um dia de 1949 estreara um jovem tímido de Juazeiro, violinista de mão cheia, um tal João Gilberto, anos depois consagrado como o pai da Bossa Nova.

Os locutores e o rádio-teatro

Nivaldo Rolemberg, Pacheco Filho, Ubaldo Cãncio de Carvalho, Antônio Laborda,  José Athaide, Paula Regina, Isa Muniz, Renato Mendonça, Everton Visco (que era também o Diretor Artístico), Armando Chaves, Renato Silva, Barbosa Filho e Fernando Garcia constituíam o "cast" de locutores da Rádio Sociedade da Bahia em inícios da década de 50. Silva e Barbosa Filho comandavam um programa denominado "Atualidades Esportivas". E com o já veterano Ubaldo Câncio de Carvalho narravam os jogos dominicais do Campo da Graça e da recém inaugurada Fonte Nova. No rádio-teatro despontavam Alcina de Toledo e René de Almeida com a novela "Trevas" e com eles  Rosely Mendes, Vitória Viana, Vanda Lucia, Mariza Rangel, Graça Morena, Nilza Guimarães, Maria Luiza, Ernesto Alves, Péricles Diniz, Jota Luna e o próprio Pacheco Filho no papel de galã na novela A mulher inesquecível.

A emissora exibia várias novelas durante a semana, as de maior sucesso:  Um homem só, produzido pelo cast do rádio-teatro, Minha vida meu amor, A vida que o mundo leva, Estrada sobre o abismo, A grande mentira, dentre outras. Nas paradas musicais marcava um tento com a transmissão em cadeia de rádio e televisão (dos Associados) do show do cantor parisiense Maurice Chevalier, direto do Copacabana Palace.

A crônica social ganha um programa específico, comercial, espécie de classificados radiofônico, intitulado "Às suas ordens". As pessoas pagavam 6 cruzeiros para veicular mensagens de aniversários, casamentos, formaturas, batizados... apresentado de domingo a domingo, no horário das 14 horas. Como contraponto da crônica social a Radio Sociedade lançava o programa "Comandos dos bairros" com uma equipe de repórteres percorrendo os mais populosos bairros da cidade, com ênfase na prestação de serviços e divulgação de suas mais urgentes necessidades. A estréia do programa tinha como cenário o populoso bairro da Liberdade já naquela época com a maior concentração de população afro-descendente da cidade.

Em 1956 o Anuário do Radio registrava a potência do novo transmissor da Radio Sociedade com 50 Kilowatts. Apenas 4 das 21 emissoras associadas orgulhavam-se de possuir um "gigante" destas proporções. A Radio Sociedade, então, podia ser ouvida em vários estados do país, em especial à noite. Mas, naquele momento, as atenções de Assis Chateubriand  e seu Diretor na Bahia Odorico Tavares estavam voltadas para um outro projeto que começava a ser materializado através de subscrição pública: A TV Itapoan que quatro anos depois entrava no ar, doravante a menina dos olhos do grupo dos Associados com reflexos na programação e audiência da Rádio Sociedade.
 

*Nelson Cadena é publicitário e autor do portal Almanaque da Comunicação - www.almanaquedacomunicacao.com.br 


Maior potência e busca por novas mídias
 

Da redação

Em 1950 a Rádio Sociedade inaugura um novo período com a instalação de um transmissor com potência de 50 kilowatts, capaz de transmitir a programação da emissora para todo o estado da Bahia. O equipamento foi instalado na localidade de Água Comprida, no município de Simões Filho, a 21 Km de Salvador, e possibilitou maior alcance e notoriedade nos mais longínquos municípios do estado.

Quatro anos depois, em 1964, a Rádio Sociedade passa por uma nova transferência de estúdios. A sede da emissora, outrora localizada no Jardim Passeio Público, passa para um prédio tombado na Rua Carlos Gomes, também no centro de Salvador. Com a transferência, a Rádio Sociedade deixa de apresentar programas de auditório. Rádio-novelas, programas humorísticos, festivais de músicas e criação de personagens como Zé Grilo ganham destaque e passam a compor a programação.

No ano de 1960 a Bahia entra na era da televisão, dez anos após o surgimento da primeira emissora de TV do Brasil. O período é marcado pelo nascimento da TV Itapoan e pela doença de Assis Chateubriand, que passou o comando dos Diários Associados a funcionários de sua confiança. Em 1968 a rede Diários Associados recebe um duro golpe: a morte de Chateubriand, já enfraquecido por uma trombose que o deixou paralisado e incapaz de comunicar-se normalmente.

Em 1970, Gileno Amado, empossado presidente da Rádio Sociedade na década de 40, falece e é substituído por Odorico Tavares. Na mesma época, a rádio entra em crise, reflexo das alternâncias da cúpula diretora da emissora e dos problemas que atingiram os Diários Associados com a morte de Chateubriand.

No ano de 1971, a Rádio Sociedade transfere seus estúdios para a Federação, local que havia sido sede provisória e que se tornou definitiva. Em 1976, Davi Raw assume o controle dos jornais e rádios que compunham os Diários Associados na Bahia com o objetivo de findar a crise financeira iniciada após a morte de Chateubriand. No entanto, a emissora continua passando por alterações no quadro de diretoria.

A crise financeira dos Diários Associados se acentua, forçando o decreto de falência da TV Tupi, a partir do Rio de Janeiro e de São Paulo. Os Diários enxugam o patrimônio e dão origem À Fundação Assis Chateubriand.

Em 1980, após mais de meio século vinculada aos Diários Associados do Brasil, a Rádio Sociedade passa a integrar o grupo Nordeste, tendo como maior acionista o empresário Pedro Irujo. A rádio passa a ser presidida por Heliete Rodrigues Irujo, sendo Luis Pedro Irujo o Diretor Geral da instituição. No período, o repórter Guilherme Santos ganha destaque e torna-se o único repórter contratado da emissora para todas as coberturas.

No ano de 1982 a rádio instala um transmissor de 100 kilowatts, na Ilha de Itaparica, capaz de transmitir a programação da rádio para localidades de outros estados como Sergipe e São Paulo. Ainda na década de 80, o locutor esportivo Djalma Costa Lino se torna o gerente administrativo da rádio, cargo que ocupa até meados de 1997.

No início da década de 90, Raimundo Varela, um dos locutores mais populares da Rádio Sociedade, deixa a instituição após divergências com o empresário Pedro Irujo. Varela só retornaria a Rádio Sociedade ano depois, quando Pedro Irujo já havia deixado o comando da emissora.

Em 1995 a Rádio Sociedade passa a ser filiada da Rede Record de Televisão. 

No ano de 2003, a Rádio Sociedade passa a ser dirigida pelo radialista Veríssimo de Jesus e inicia uma época em que desfrutaria de um dos maiores crescimentos de audiência de toda a sua história. Novos programas, novas contratações e a instalação de um transmissor digital de 100 kilowatts, o primeiro na América Latina.

Em abril de 2007 Bernadete Santos assume a direção da Rádio Sociedade AM, dando continuidade ao crescimento da emissora. Além disso, passa a valorizar maneiras de levar o conteúdo da Rádio Sociedade para o mundo, através da internet, utilizando os recursos multimídias. Atualmente, a emissora comemora 86 anos e é dona de uma das maiores audiências do país, com picos que ultrapassam os 50%, se mantendo entre as quatro emissoras de Rádio mais ouvidas no Brasil.


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